• Paulo Sérgio Rosseto

CONTRIÇÃO

Senhor, nesse momento de incertezas vãs

Piedade primeiro aos teus servos desolados

Abandonados pelos teus propalados pastores


Estes, trancafiaram-se em suas mansões e palácios

Isolados nas catedrais, reclusos pelos mosteiros

Retidos nos templos, escondidos nas igrejas vazias

Como se longe das ruas fossem intocáveis e salvos


Afugentados do mundo enclausuraram em seus espaços

Contidos em suas túnicas, batinas, sobrepelizes

Enforcados por seus cíngulos longe das ovelhas

Envoltos das estolas e dalmáticas

Vestidos das casulas e ternos assustados

Encarapuçados de suas mitras e ricos solidéus

Mas despidos da franca humildade do ser amado


Estes homens que tanto bradavam ‘vendo-te os céus’

Clamam desgovernados por seus próprios cajados

Astutos implorando o perdão dos pecados

Mas sem coragem de ir vê-lo face a face

Tanto oram e ainda quedam-se duvidados

Blasfemando a perda da moeda da fé


E a mim, Senhor, nu pecador confesso

Que de tanto nega-lo até nem sei e nem entendê-lo posso

A mim nada peço exceto que descanse

Longe das sombras do assombro desses falsos bons moços

Para que possa com teu povo lutar por um mundo novo

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